quinta-feira, 8 de outubro de 2009
o gosto e o desgosto é oposto ao fosso do poço em que caio sem gozo
sem graça sem asa
afinal, no final há algo de terminal, não?!
NOW!
porque o término, enfim, é o fim
mas do final há o começo o recomeço
eu acho que mereço um recomeço
eu tenho certeza que nesse estágio final terminal eu mereço um recomeço
um novo de novo
a vida como dádiva da vida
dúvida?!
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Foi um pequeno momento, um jeito/Uma coisa assim/Era um movimento que aí você não pôde mais/Gostar de mim direito/Teria sido na praia, medo/Vai ser um erro, uma palavra/A palavra errada/Nada, nada/Basta quase nada/E eu já quase não gosto/E já nem gosto do modo que de repente/Você foi olhada por nós/Porque eu sou tímido e teve um negócio/De você perguntar o meu signo quando não havia/Signo nenhum/Escorpião, sagitário, não sei que lá/Ficou um papo de otário, um papo/Ia sendo bom/É tão difícil, tão simples/Difícil, tão fácil/De repente ser uma coisa tão grande/Da maior importância/Deve haver uma transa qualquer/Pra você e pra mim/Entre nós/E você jogando fora, agora/Vá embora, vá!/Há de haver um jeito qualquer, uma hora!/Há sempre um homem/Para uma mulher/Há dez mulheres para cada um/Uma mulher é sempre uma mulher etc. e tal/E assim como existe disco voador/E o escuro do futuro/Pode haver o que está dependendo/De um pequeno momento puro de amor/Mas você não teve pique e agora/Não sou eu quem vai/Lhe dizer que fique/Você não teve pique/E agora não sou eu quem vai/Lhe dizer que fique/Mas você/Não teve pique/E agora/Não sou eu quem vai/Lhe dizer que fique
FOR NO ONE
Your day breaks, your mind aches,
You find that all her words of kindness linger on,
When she no longer needs you.
She wakes up, she makes up,
She takes her time and doesn’t feel she has to hurry,
She no longer needs you.
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years.
You want her, you need her,
And yet you don’t believe her,
When she says her love is dead,
You think she needs you.
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years.
You stay home, she goes out,
She says that long ago she knew someone but now,
He’s gone, she doesn’t need him.
Your day breaks, your mind aches,
There will be times when all the things she said will fill your head,
You won’t forget her.
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years.
By Paul McCartney
John Lennon said of the song, "One of my favourites of his—a nice piece of work."
Your day breaks, your mind aches,
You find that all her words of kindness linger on,
When she no longer needs you.
She wakes up, she makes up,
She takes her time and doesn’t feel she has to hurry,
She no longer needs you.
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years.
You want her, you need her,
And yet you don’t believe her,
When she says her love is dead,
You think she needs you.
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years.
You stay home, she goes out,
She says that long ago she knew someone but now,
He’s gone, she doesn’t need him.
Your day breaks, your mind aches,
There will be times when all the things she said will fill your head,
You won’t forget her.
And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years.
By Paul McCartney
John Lennon said of the song, "One of my favourites of his—a nice piece of work."
terça-feira, 29 de setembro de 2009
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Fudeu. The game is over and over and all over and love over love is over. Lapsos de insensatez e de consciência afrontam diretamente todo o teatro armado alado selado de lodo. Tempo de vida cercada, vivida imaculada, certa, mas errada. Como diz Raul, “eu já vi muito sol se por”. A busca rebusca. Something is happening and u don’t know what it is. Nothing seem the same anymore. Convulsão compulsória. Claustrofobia. HomoSapiens fobia. Cerco fechado, cavalo selado. pronto. lapsos súbitos de consciência inconsciente inconstante subita. eu já disse SUBITA. prisão claustrofobica. eu sinto vergonha por ser homem. mas eu nao tive escolha, nasci assim. pequena burra. pobre coitada, uma imbecil. sai ja formada errada transviada. quando eu nasci eu nem tive escolha, eu nao existia, ainda. nao era de mim, nao lembro de mim, como posso nao lembrar de mim mesma. precisava de cuidados, ajuda. mamae sempre me ajudou muito. desde d sempre cuidou de mim, me deu de comer me criou, amou. eu nao tive escolha. eu nao escolhi ser mulher. nao escolhi. e por deus vou ter que aturar isso para empre. na vida e sempre preciso pensar em coisas boas, porque senao viver nao vale a pena. ai viver comeca a fazer mal. alem de ser caro. vou cortar minha buceta fora. vou cortar meus peitos fora. mutilacao, inversao. outro tipo de outra coisa que seria outro ser. mundinho patetico. cheio de gentalha. gentalha gentalha gentalha. pobres burros otarios presos a um corpo que a nada pertence. que nada e. vou reinventar a especie. vou transfigurar recriar. vou ser genero?genrero interrogacao. duvida nada. genero metafisico fisico e concreto. real e apolitico. perdido, mas no centro. mutacao humana emocao inumana. fim do trecho percorido entra ser ou nao ser. naos sou e vc tbm nao e. ta td errado. td errado. eles falam que eu estou louca mais para mim quem esta louco sao eles. eles falam que eu estou por fora mas quem esta por fora sao eles. eu to por dentro, eles nao sabem. sao burros, e eu tenho do. vitimizada, nao. humanizada, nao. encarrulada SIM. estracalhada, SIM. o tempo acabou. the time is over. also the game is. nothing even matters no more. anymore, nevermore. truecidio. eles cometeram o truecidio. eu nao cometi, eles cometeram. liecidio eles tambem ometeram. eu nao cometi. enquanto eles cometeram eu via cometas cometendo all the time. filosofia da razao, perca da razao. razao da porra toda.
terça-feira, 3 de março de 2009
SITUAÇÃO DA VANGUARDA NO BRASIL
Se quisermos definir uma posição específica para o que chamamos de vanguarda brasileira, teremos que procurar caracterizar a mesma como um fenômeno típico brasileiro, sob pena de não ser vanguarda nenhuma, mas apenas uma falsa vanguarda, epígono da americana (POP) ou da francesa (nouveau-realisme), etc. Como artista integrante dessa vanguarda brasileira, e teórico, digo que o acervo de criações ao qual podemos chamar de vanguarda brasileira, é um fenômeno novo no panorama internacional, independente dessas manifestações típicasamericanas ou européias. Vinculação existe, é claro, pois no campo da arte nada pode ser desligado de um contexto universal. Isto é algo que já se sabe há muito e não interessa discutir aqui.
Toda a minha evolução de 1959 para cá tem sido na busca do que vim a chamara recentemente de uma nova objetividade, e creio ser esta a tendência específica da vanguarda brasileira atual. Houve como que a necessidade da descoberta das estruturas primordiais do que chamo öbra", que se começaram a revelar com a transformação do quadro para uma estrutura ambiental (isto ainda na época do movimento Neoconcreto do Rio), a criação dessa nova estrutura em bases sólidas e o gradativo surgimento dessa nova objetividade, que se caracteriza em princípio pela criação de novas ordens estruturais, não de 'pintura'ou de 'escultura', mas ordens ambientais, o que se poderiam chamar 'obbjetos'. Já não nos satisfazem as velhas posições puramente estéticas do princípio, das descobertas de estruturas primordiais, mas essas descobertas como que se tornaram habituais e se dirige o artista mais ao estabelecimento de ordens objetivas, ou simplesmente à criação de objetos, objetos esses das mais variadas ordens, que não se limitam à visão, mas abrangem toda a escala sensorial apreensiva e mergulha de maneira inesperada num subjetivismo renovado, como que buscando as raizes de um comportamento coletivo ou simplesmente individual, existencial. Não me refiro à minha experiência em particular (negação do quadro, criação ambiental de 'núcleos', 'penetráveis', 'bólides'e 'parangolé'), mas também no que posso verificar nas diversas manifestações daqui. A participação do espectador é fundamental aqui, é o princípio do que se poderiam chamara de 'proposiçkões' para a criação, que culmina no que formulei como antiarte. Não se trata mais de impor um acervo de idéias e estruturas acabadas ao espectador, mas de procurar, pela descerntralização da 'arte', pelo deslocamento do que se designa como arte, do campo intelectual racvional, para o da proposição creativa existencial, ou seja vivencial; dar ao homem, ao indivíduo de hoje, a possibilidade de "experimentar a criação", de descobrir pela participação, participação esta de diversas ordens, algo que para ele possua significado. Não se tratam mais de definições intelectuais seletivas: isto é figura, aquilo é pop, aquilo outro é realista_tudo isto é espúrio! O artista de hoje usa o que quer, mais liberdade creativa não é possível. O que interessa é justamente jogar de lado toda essa porcaria intelectual, ou deixá-la para os otários da crítica morta, ultrapassada, e procurar um modo de dar ao individuo a possibilidade de 'experimentar', de deixar de ser espectador para ser participador. Ao artista cabe acentuar este ou aquele lado dessas ordens objetivas. Não interessa se Gerchman, p. ex., usa figura pregada em caixas, ou de Lígia Clark usa caixas de fósforos ou plásticos com água, o que interessa é a proposição que faz Gerchman ao dar marmitas-objetos para que o indivíduo carregue ou a proposição de Clark quando pede que apalpem suas bolsas plásticas. Poder-se-ia chamar a isto de 'novo realismo' (no sentido em que o emprega Mário Schenberg. p.ex., e não no de Restany), mas prefiro o de 'nova objetiva', pois muito mais se dirigem estas experiências à descoberta de objetos pré-fabricados (nas minhas 'apropriações', ou nas experiências popconcretas de Cordeiro) ou à criação de objetos, mais generalizada entre nós, como que tentando criar um mundo experimental, onde possam os individuos ampliar o seu mundo imaginativo em todos os campos e, principalmente, criar ele mesmo parte desse mundo (ou ser solicitado a isso). No Brasil, livre de passados gloriosos como os europeus, ou de super-prodeções como os americanos, podemos com 'élan'criar essa 'nova objetividade',que é dirigida principalmente por uma necessidade construtiva característica nossa (vide arquitetura, p. ex.) e que tende, a cada dia, a definir-se mais ainda. O que há realmente pioneiro na nossa vanguarda é essa nova 'fundação do objeto', advinda da descrença nos valores esteticistas do quadro de cavalete e da escultura, para a procura de uma 'arte ambiental' (que para mim se identifica, por mim, com o conceito de antiarte). Essa magia do objeto, essa vontade incontida pela construção de novos objetos perceptivos (tácteis, visuais, proposicionais, etc.), onde nada é excluído, desde a crítica social até a patenteação de situações -limite, são características fundamentais da nossa vanguarda, que é vanguarda mesmo e não arremedo internacional de país subdesenvolvido, como até agora o poema a maioria das nossas ilustres vacas de presépio da crítica podre e fedorenta.
Hélio Oiticica
Novembro 1966
sábado, 14 de fevereiro de 2009
don´t think twice, it´s all right
If you don't know by now
An' it ain't no use to sit and wonder why, babe
It'll never do somehow
When your rooster crows at the break of dawn
Look out your window and I'll be gone
You're the reason I'm trav'lin' on
Don't think twice, it's all right
It ain't no use in turnin' on your light, babe
That light I never knowed
An' it ain't no use in turnin' on your light, babe
I'm on the dark side of the road
Still I wish there was somethin' you would do or say
To try and make me change my mind and stay
We never did too much talkin' anyway
So don't think twice, it's all right
So it ain't no use in callin' out my name, gal
Like you never done before
It ain't no use in callin' out my name, gal
I can't hear you any more
I'm a-thinkin' and a-wond'rin' walking down the road
I once loved a woman, a child I'm told
I give her my heart but she wanted my soul
But don't think twice, it's all right
I'm walkin' down that long, lonesome road, babe
Where I'm bound, I can't tell
But goodbye's too good a word, babe
So I'll just say fare thee well
I ain't sayin' you treated me unkind
You could have done better but I don't mind
You just kinda wasted my precious time
But don't think twice, it's all right
sábado, 17 de janeiro de 2009
Ligeia
I cannot, for my soul, remember how, when or even precisely, where, I first became acquianted with the lady Ligeia. Long years have since elapsed, and my memory is feeble through much suffering. Or, perhaps, I cannot now bring these points to mind, because, in truth, the character of my beloved, her rare learning, her singular yet placid cast of beauty, and the thrilling and enthralling eloquence of her low musical language, made their way into my heart by paces so steadily and atealthily progressive that they have been unnoticed and unknowm. Yet I believe that I met her first and most frequently in some large, old, decaying city near the Rhine. Of her family - I have surely heard her speak. That it is of a remotely ancient date cannot be doubted. Ligea! Ligea! Buried in studies of a nature more than all else adapted to deaden impressions of the outward world, it is by that sweet word alone - by Ligea - that I bring before mine eyes in fancy the image of her who is no more. And now, while I write, a recollection flashes upon that I have never known the paternal name of her who was my friend and my betrothed, and who became the partner of my estudies, and finally the wife of my bosom. Was it a playful charge on the part of my Ligea? or was it a test of my strength of affection, that I should institute no inquires upon this point? or was it rather a caprice of my own - a wildly romantic offering on the shrine of the most passionate devotion? I but indistincly recall the fact itself - what wonder that I have utterly forgotten the circumstances which originated or attended it? And, indeed, if ever that spirit which is entitled romance - if ever she, the wan and the misty - winged Ashtophet of idolatrous Egypt, presided, as they tell, over marriages illomened, then most surely she presided over mine.
There is one dear topic, however, on which my memory fails me not. It is the person of Ligea. In stature she was tall, somewhat slender, and, in her latter days, even emaciated. I would in vain attempt to portray the majesty, the quiet ease, of her demeanor, or the incomprehensible lightness and elasticity of her footfall. She came and departed as a shadow. I was never made aware of her entrance into my closed study save by the dear music of her low sweet voice, as she placed her marble hand upon my shoulder. In beauty of face no maiden ever equalled her. It was the radiance of an opium - dream - an airy and spirit - lifting vision more wildly divine than the phantasies which hovered about the slumbering souls of the daughters of Delos. Yet her features were not of that regular mould which we have been falsely thaught to worship in the classical labors of the heathen. "There is no exquisite beauty", says Bacon, Lord Verulam, speaking truly of all the forms and genera of beauty, "without some strangeness in the proportion". Yet, although I saw that the features of Ligea were not of a classic regularity - although I perceived that her loveliness was indeed "exquisite", and felt that there was much of "strangeness" pervading it, yet I have tried in vain to detect the irregularity and to trace home my own perception of "the strange". I examined the contour of the lofty and pare forehead - it was faultless - how cold indeed that word when applied to a majesty so divine! - the skin rivalling the purest ivory, the commanding extent and repose, the gentle prominence of the regions above the temples; and then the ravenblack, the glossy, the luxuriant and naturally - curling tresses, setting forth the full force of the Homeric epithet, "hyacinthine"! I looked at the delicate outlines of the nose - and nowhere but in the graceful medallions of the Hebrews had I beheld a similar perfection. There were the same luxurious smoothness of surface, the same scarcely perceptible tendency to the aquiline, the same harmoniously curved nostrils speaking the free spirit. I regarded the sweet mouth. Here was indeed the triumph of all things heavenly - the magnificient tuirn of the short upper lip - the spft, voluptous slumber of the under - the dimples which sported, and the clolor which spoke - the teeth glancing back, with brilliancy almost startling, every ray of the holy light which feel upon them in her serene and placid, yet most exultinglyradiant of all smiles. I scrutinized the formation of the chin - and here, too, I found the gentleness of breadth, the softness and the majesty, the fullness and the spirituality, of the Greek - the contour wich the god Apollo revealed but in a dream, to Cleomenes, the son of the Athenian. And then I peered into the large eyes of Ligea.
For eyes we have no models in the remotely antique. It might have been, too, that in these eyes of my beloved lay the secret to which Lord Verulam alludes. They were, I must believe, far larger than the ordinary eyes of our own race. They were even fuller than the fullest of the gazelle eyes of the tribe of the valley of Nourjahad. Yet it was only at intervals - in moments of intense excitement - that this peculiarity became more than slightly noticeable in Ligea. And at such moments was her beauty - in my heated fancy thus it appeared perhaps - the beauty of beings either above or apart from the earth - the beauty of the fabulous Houri of the Turk. The hue of the orbs was the most brilliant of black, and far over them, hung jetty lashes of great length. The brows, slightly irregular in outline, had the same tint. The "strangeness", however, wich I found in the eyes, was of a nature distinct form the formation, or the color, or the brilliancy of the features, and must, after all, be referred to the expression. Ah, word of no meaning! behind whose vast latitude of mere sound we intrench our ignorance of so much of the spiritual. The expression of the eyes of Ligea! How for long hours have I pondered upon it! How have I, through the whole of a midsummer night, struggled to fathom it! What was it - that something more profound than the well of Democritus - which lay far within the pupilusof my beloved? What was it? I was possessed with a passion to discover. Those eyes! those large, those shining, those divine orbs! they became to me twin stars of Leda, and I to them devoutest of astrologers.
There is no point, among the many incomprehensible anomalies of the science of mind, more thrillingly exciting than the fact - never, I believe, noticed in the schools - that, in our endeavors to recall to memory something long forgotten, we often find ourselves upon the very verge of remembrance, without being able, in the end, to remember. And thus how frequently, in my intense scrutiny of Ligea's eyes, have I felt approaching the full knowledge of their expression - felt it approaching, yet not quite be mine - and so at length entirely depart! And (strange, oh strangest mystery of all!)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
I
Sou um homem doente...Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a "pregar peças" nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.
Já faz muito tempo que vivo assim: uns vinte anos. Tenho quarenta, agora. Já estive empregado, atualmente não. Fui um funcionário maldoso, grosseiro, e encontrava prazer nisso. Não aceitava gratificações; no entanto, devia premiar - me ao mesno desse modo. (É um mau gracejo; mas não vou riscá - lo. Escrevi - o pensando que sairia muito espirituoso; mas agora, percebendo que apenas pretendi assumir uma atitude arrogante e ignóbil, não o riscarei, de propósito!) Quando os solicitantes, com pedidos de informações, se acercavam da mesa junto à qual me sentava, eu lhes respondia com um ranger de dentes, e sentia prazer insaciável quando conseguia magoar alguém. Conseguia isto quase sempre. Na maior parte dos casos, aparecia gente tímida: era natural, em se tratando de solicitantes. Mas, dentre os que se trajavam com presunção, eu não suportava particularmente certo oficial. Ele teimava em não se sujeitar e tilintava o sabre de modo abominável. Por causa daquele sabre, guerreamos um ano e meio. Finalmente, venci. Ele deixou de tilintá - lo. Aliás, isso aconteceu ainda na minha mocidade. Mas sabeis, senhores, em que consistia o ponto principal da minha raiva? O caso todo, a maior ignomínia, consistia justamente em que, a todo momento, mesmo no instante do meu mais intenso rancor, eu tinha consciência, e de modo vergonhoso, de que não era uma pessoa má, nem mesmo enraivecida; que apenas assustava passarinhos em vão e me divertia com isso. Minha boca espumava, mas, se alguém me trouxesse uma bonequinha, me desse chazinho com açúcar, é possível que me acalmasse. Ficaria até comovido do fundo da alma, embora, certamente, depois rangesse os dentes para mim mesmo e, de vergonha, sofresse de insônia por alguns meses. É hábito meu ser assim.
Menti a respeito de mim mesmo quando disse, ainda há pouco, que era um funcionário maldoso. Menti de raiva. Eu apenas me divertia, quer com os solicitantes, quer com o oficial, mas, na realidade, nunca pude tornar - me mau. A todo momento constatava em mim a existência de muitos e muitos elementos contrários a isso. Sentia que esses elementos contraditórios realmente fervilham em mim. Sabia que eles haviam fervilhado a vida toda e que pediam para sair, mas eu não deixava. Não deixava, de propósito não os deixava extravasar. Atormentavam - me até a vergonha, chegavam a provocar - me convulsões e, por fim, acabaram por enjoar realmente! Não vos parece que eu, agora, me arrependo de algo perante vós, que vos peço perdão?... Estou certo de que é esta a vossa impressão... Pois asseguro - vos que me é indiferente o fato de que assim vos pareça...
Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar - me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando - me a mim mesmo com o consolo raivoso - que para nada serve - de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar - se algo, e de que somente os imbecis o conseguem. Sim, um homem inteligente do século dezenove precisa e está moralmente obrigado a ser criatura eminetemente sem caráter; e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo limitada. Esta é a convicção dos meus quarenta anos. Estou agora com quarenta anos; e quarenta anos são, na realidade, a vida toda; de fato, isso constitui a mais avançada velhice. Viver além dos quarenta é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? Respondei - me sincera e honestamente. Vou dizer - vos: os imbecis e os canalhas. Vou dizer isto na cara de todos esses anciães respeitáveis e perfumados, de cabelos argênteos! Vou dizê - lo na cara de todo mundo! Tenho direito de falar assim, porque eu mesmo hei de viver até os sessenta! até os sessenta! até os oitenta!... Um momento! Deixai - me tomar folêgo...
Pensais acaso, senhores, que eu queira fazer - vos rir? É um engano. Não sou de modo algum tão alegre como vos parece, ou como vos possa parecer; aliás, se, irritados com toda esta tagarelice (e eu já sinto que vos irritastes), tiverdes a idéia de me perguntar quem, afinal, sou eu, vou responder: sou um acessor - colegial. Fiaz parte do funcionalismo a fim de ter algo para comer (unicamente para isto), e quando, no ano passado, um dos meus parentes afastados me deixou seis mil rublos em seu testamento, aposentei - me imediatamente e passei a viver neste meu cantinho. Já antes disso vivi aqui, mas agora instalei - me nele. Tenho um quarto ordinário nos arredores da cidade. A minha criada é uma aldeã velha, ruim por estupidez, e, além disso, cheira sempre mal. Dizem - me que o clima de Petesburgo está - me prejudicando e que, para os meus insignificantes recursos, a vida aqui é muito cara. Sei disso; sei melhor que todos estes conselheiros e protetores experimentados e sábios. Mas ficarei em Petesburgo; não deixarei esta cidade! Não a deixarei porque... Eh! Mas, na realidade, me é todo indiferente o fato de que a deixe ou não.
Dizei - me: de que pode falar um homem decente, com o máximo prazer?
Resposta: de si mesmo.
Então, também vou falar de mim.
Trecho extraído do livro Memórias do Subsolo de F. Dostoiévski - Tradução: Boris Schnaiderman
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